...Que mãe nunca pensou assim? Talvez nessa nossa geração esse pessamento tenha diminuído, creio que por que quando crianças, a maior parte de nós não sofreu tanto, não sentimos falta de coisas básicas. Eu me lembro muito da minha mãe esbravejar quando fazíamos cara feia pra sua comida (que alias é a melhor do mundo)...
..." Quando eu era criança não tinha nem isso..."
E ela fazia longos discursos sobre sua infância, suas dificuldades, sobre sentir fome, frio, não ter brinquedos, ter só um par de sapatos, e ter de começar trabalhar aos 13 anos.
Como filha, é claro que eu não gostava de ouvi-la: Sentia uma mistura de pena e raiva, pensava que aquilo tudo era reclamação, exagero, enfim...
Agora, como mãe, sei muito bem que no fundo ela queria apenas nos conscientizar, mostrar que o que tínhamos era muito, que deveríamos ser gratos. Hoje eu sei que fazer uma criança enxergar a vida alem de seu umbigo é uma tarefa bem exaustiva. Com as meninas eu sempre converso, e as ensinei a orar pelas crianças que não tem comida, que não tem casa ou que não tem papai e mamãe. Elas oram antes do almoço, e eu acho lindo, por que nem precisamos mais lembra-las, ou seja: de certa forma elas entendem que nem todos tem o mesmo que nós, mesmo que não seja muito.
Minha mãe demonstrava muito orgulho de trabalhar, valorizava seu trabalho: Era uma costureira eximia.
E sim, ela nos dava o que ela não teve. Comprava muitas roupas, quando não, ela mesma costurava, confecção sob medida! Quase sempre chegava do trabalho com um presentinho, uma coisinha, mesmo bem baratinha. Eu me lembro com saudades das balas geladas de coco e abacaxi que ela trazia toda semana.
Ela ficava feliz em nos presentear, fazer festa de aniversário todo ano, mesmo depois de "grandes" nunca ficamos sem um bolo, docinhos e "parabéns".
Hoje fico pensando sobre o que eu quero dar as minhas filhas...Na minha infância não me faltaram brinquedos, roupas ou comidinhas gostosas: Minha mãe fazia questão de não deixar faltar nada disso, como já disse...Tudo isso me fez refletir sobre valores e sobre pontos de vista, pois às vezes o que importa pra mim, não é importante para minha filha...
No meu caso pouco me importava se minha mãe estava feliz em poder comprar nossas coisas e ter mais comida em casa do que ela teve quando criança. Isso era irrelevante pra mim. Sim, haviam coisas materiais que eu gostaria de ter, mas nunca sofri por isso.
Eu apenas queria minha mãe por perto. Sentia falta de falar com ela enquanto ela cozinhava, coisa que fazia nos períodos em que ela esteve em casa, sem emprego, ou por estar cuidando de minha avó.Sentia falta de sua ajuda na lição de casa, e sentia sua falta quando não encontrava aquela roupa, ou aquele livro. Eu a queria por perto, queria saber que ela estaria me esperando depois da escola, e que poderia encontrá-la em casa,
sempre.
Isso é um dos motivos pelo qual ainda sou dona de casa. Quero estar presente na lição de casa, na hora do almoço e de dormir...Mas será que é isso que elas querem ou precisam? O que quero dar a elas eu sei: Minha atenção e dedicação 24h...
Mas ficam as duvidas, a ansiedade, a pressão da sociedade, a dorzinha no coração quando escuto "
mamãe compra pra mim?" e a vontade de ajudar o marido nas despesas (nada leves com uma família de 5 pessoas).
Sempre idealizei uma casa grande, muitos brinquedos e um quarto de princesa...por isso meu plano inicial era de voltar a estudar depois que a Ana nascesse. Terminar o colegial, fazer faculdade, trabalhar...seguir o percurso que tracei, mesmo que a maternidade tivesse vindo antes do planejado...mas não pude.
Fui incapaz de desgrudar da minha cria, mesmo que o colégio ficasse perto de casa, mesmo que o Renato apoiasse, mesmo que minha mãe estivesse disposta a cuidar da minha pequena, e fizesse isso melhor que eu. Eu adiei. " Espera até os 6 meses..." e depois1 ano, e então eu já estava grávida da Renata.
Quando a Renata completou 1 ano eu me enchi de coragem e voltei...fiz de novo o 2º ano, e comecei o 3º mas...percebi que aquilo não era pra mim, a sala de aula me cansava mais do que cuidar de duas bebês e da casa. Não era a matemática (encontrei a melhor professora do mundo nesse período) não era química nem física (fiquei muito boa nessas duas, depois de ser mãe!). Era a classe, o barulho, as conversas, as pessoas que não tinham absolutamente nada a ver comigo, com minha vida. Eu chegava em casa chateada, e quase as onze da noite, ainda haviam duas meninas para fazer dormir. Fiquei doente em outubro. Encontrei uma boa desculpa pra jogar tudo para o alto e voltar a ser só mãe.
Como é difícil decidir, não deveria ser tão complicado. Devíamos ter uma Máquina do Tempo para ver se nossos filhos vão estar felizes no futuro com sua mãe dona de casa, ou se vão reclamar por não terem tudo o que queriam (se é que alguém pode dar)...
Dona de casa:
"Ser ou não ser? Eis a questão!"