Tem gente que anda por aí. Tem quem corra,voe, tem quem se arraste. Tem gente que anda triste. Cansado, deprimido, irritado.
E me pergunto do que precisamos. Seria de mais tempo, de mais dinheiro, de mais lazer? Será que precisamos de mais cinema, de mais férias, de mais academia, de um emprego melhor? Mais música, mais móveis, mais roupas, mais sexo, mais livros, mais brigadeiro?
Nessas andanças, que ora corremos, ora paramos de vez e acabamos passando mais tempo preocupados do que felizes, o que é que falta, afinal?
Eu falo por mim. Preciso só de uns ouvidos.
Não é de um ouvido só porque possuímos dois, e eu quero, e preciso dos dois- de atenção total por alguns minutos. E ao olhar ao meu redor, eu creio que também é isso que uma boa parte das pessoas querem. E precisam. Uns ouvidos. Pra escutar lamurias, anedotas, lembranças, saudades, tristezas, alegrias. Tragédias cômicas pelas quais todos passamos, Pra escutar nossos defeitos, nossas mágoas, nossos pesares, arrependimentos, sucessos, lutas, o que for.
Só escutar. Não precisa de palpite, de opinião, de ponderações sensatas, não precisa tentar ajudar. A gente quase nunca sabe. Se você tiver um par de ouvidos, e uns minutinhos nos quais você possa se esquecer quão perfeito e sábio você é, e então se deixar calar e apenas ouvir... O mundo vai ser melhor.
Eu quero, e preciso, de uns ouvidos, que não os meus, pra me ouvir em silencio e nesse silencio dizer tudo o que preciso ouvir: _Eu estou aqui, e estou te ouvindo.
Mas eu também preciso dos meus ouvidos, e preciso educá-los para melhor servirem. Eles precisam muito trabalhar mais do que minha boca, e até mais que meu cérebro. Preciso dar a eles trabalho, preciso parar e escutar um amigo, um parente, um desconhecido me contar das coisas que ele já viu, já ouviu, já passou. Quero ouvir das batalhas de alguém que criou dez filhos, ou que nunca teve um. Quero ouvir um senhor que foi pra guerra, seja guerra o que for. Quero ouvir umas crianças, e minhas crianças, e outras que não conheço, a imaginarem um mundo que não é esse. Quero escutar as pessoas que passam por mim, mesmo que tudo o que elas tenham seja apenas queixas e mais queixas, e quero o fazer sem pensar num sermão, numa lição, numa experiencia própria que nunca é igual a de ninguém. Nunca. E me lembrar que se isso eu fizer posso me tornar mais sábia, mais inteligente. Ou não. Pode ser apenas uns minutos perdidos entre tantos minutos que perdemos por aí. Acontece que no fim, o ouvir, ainda que uns ouvidos sejam essenciais, não é um ato que favoreça, ou que deva favorecer o ouvinte. É apenas pra ser útil ao falante. Que precisa só de uns ouvidos, nada mais.

Portanto, meus amados irmãos, todo o homem seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar.
Tiago 1:19