Foi na terça, dia 22 de setembro. Mais um dia comum em que volto do trabalho pensando em como minhas meninas estariam voltando: Rafaela e Renata da escola e Ana Júlia da casa da minha tia, onde passara a tarde com minha mãe. Graças a Deus o avó pode pegá-las e trazer pra casa de carro, porque se você não sabe minha cidade é feita de escolas, ipês e morros.
Depois de me arrastar por quase uma hora, carregando junto com meu peso, todo o cansaço de mais um dia de trabalho, cheguei um pouco depois delas, que me esperavam na frente de casa. A avó comentou que a Ana estava com dor na barriga, mas até aí todos nós ainda acreditávamos que era por conta de uma batida que ela deu na quina do baú da casa dá vó no sábado, era um pouco estranho doer na terça porque no domingo fomos na roça, e ela nadou e aproveitou muito bem o dia, na segunda foi à escola e ao Taekwondo, e só se queixou a noite, mas pensei que foi a mistura da dor da pancada com o treino puxado que ela disse ter feito. Na terça pela manha ela reclamou de novo e eu comecei a ficar preocupada: agradeci a Deus quando a amiguinha que faz revesamento de carona com minha irmã disse que sua mãe a buscaria mais cedo, pois ela estava com febre e só iria fazer a prova. Decidi que a Ana voltaria mais cedo com ela. Durante o dia ela ainda se queixou, e ela não é disso. Podia ser só uma dorzinha no local que estava roxinho, mas (infelizmente) uma priminha do meu marido descobriu um tumor achando que era só uma pancada. Então achei sensato levá-la ao pronto atendimento, mesmo com pouca esperança de pedirem um raio-x, e achando que ia sair de lé apenas com uma prescrição para anti-inflamatório, gelo ou coisa do tipo. Estava em casa sozinha com as 3, e como minha habilitação ainda é um desejo na lista, esperei o Renato chegar. Enquanto isso tomei e dei banho nelas, depois deixei a Rafaela e a Renata vendo vídeo e deitei com a Ana, nós duas cochilamos, quando Renato chegou ela ainda dormia e eu quis deixar o hospital para a manha seguinte. Mas ele ficou preocupado, a acordamos e ele pediu que ela mostrasse onde doía. Era bem no local onde ela havia batido, mas esse também era o local do apêndice.
Logo o papai pensou em apendicite, e insistiu que deveríamos levá-la naquele instante. Ela odeia hospital, mas estava realmente com tanta dor, que só pediu pra ir logo, e pra levar a joaninha de pelúcia com a qual dorme desde os 5 anos. E foi assim que chegamos ao cirurgião, depois de esperar um bom tempo na recepção, passar pelo pediatra, colher sangue e urina, andar de cadeira de rodas pela primeira vez, e lacrimejar silenciosamente (partiu meu coração ver isso) nas vezes em que o pediatra, e depois o cirurgião apertaram a região do apêndice, o pai assinou os papeis da internação, depois ficou com ela enquanto eu ouvia e tentava não chorar com as palavras do médico. Anestesia geral pra mim era o pior de tudo. Indaguei sobre exame de risco cirúrgico, mas ele disse que criança não precisa. Me restou confiar que ficaria tudo bem, e segurar a mão da minha pequena enquanto encontravam uma veia pra botar o soro e o antibiótico. O médico não me deu hora certa pra opera-la pois o centro cirúrgico estaria bem cheio no dia seguinte, mas disse que seria pela manha.
Essa manha demorou passar. Orei com ela e expliquei o que era a cirurgia da maneira que consegui, tentando deixá-la tranquila. Ela não estava nervosa como um adulto ficaria, com medo do pior. Estava mais é com raiva daquilo tudo, principalmente de ficar presa ao soro e não poder ir pra casa.
Só nós duas e as enfermeiras estávamos no andar da pediatria, ela já estava entediada com a Tv, não podia comer, nem se livrar do soro. A levei pra dar uma volta até onde ficavam uns brinquedos, pegamos alguns e fomos para o quarto. Brincamos de chá.
Quando era quase 12h uma enfermeira trouxe a camisola que eu deveria por nela para a cirurgia. A tensão aumentou um pouco, mas tentei ficar calma e transmitir calma à ela, que era quem passaria pela pior parte afinal. Fiz uma trança em seu cabelo e lhe ofereci o batom pra passar. Tirei uma foto. Esperamos um pouco, e finalmente vieram. Ela havia me feito prometer que ficaria com ela o tempo todo, mas como sabia que isso não seria possível prometi que ficaria até onde permitissem, e foi até a porta do centro cirurgico. Me despedi dela com uma abraço e pedi que ela fosse corajosa, mas quando ela olhou pra trás tentando segurar o choro eu desmontei, e fui pro quarto chorar cheirando o vestido que ela usou no dia anterior. Chorei, orei, troquei mensagens com o marido, parentes e amiga- essa ultima orou comigo via whatsapp e consegui me manter um pouco mais calma, até não aguentar e ir pedir informações para a enfermeira. As da pediatria não podiam ajudar muito, em compensação uma das do centro cirúrgico manteve uma porta aberta de forma que eu conseguia ver uma parte da sala de cirurgia (uma porta de vidro ainda estava fechada) não dava pra ver a Ana, mas consegui ver o movimento de médicos e enfermeiras e me assegurei de que estava tudo bem. Algumas enfermeiras vieram me dizer que estava quase terminando. Durou uma hora, mas foi uma das piores horas da minha vida. O médico saiu e antes de entrar no elevador me disse que a cirurgia foi tranquila, o apêndice, como ele já havia dito não estava sulfurado, mas ela ainda levaria mais ou menos 1 hora pra voltar da anestesia e só aí iria voltar pro quarto. O Renato chegou as 13h, e as 13:30h a minha sogra, e a Ana veio pro quarto só as 14:30. Ela ainda dormiu o dia todo. Só acordou de verdade a noite quando médico e as duas tias foram vê-la.
Na quinta de manha a melhor noticia: Alta! Mal pude acreditar, eu até não me importo tanto o clima de hospital, mas a Ana estava aflita pra ir embora e se livrar do cateter, do soro e da Tv que tinha todos os canais de desenho, mas não tinha controle.
Ficamos na minha sogra até o sábado. Precisei trabalhar sábado, e hoje também. Mas hoje é o ultimo dia do meu período de experiencia na empresa, e eu pedi demissão, e essa cirurgia da Ana foi apenas a gota que faltava, eu já não estava satisfeita. Não quero me sentir dividida: quando estou com minhas filhas, penso no trabalho, quando estou no trabalho, penso nelas. Quero ser inteira. E já me decidi que a partir de agora trabalho, remunerado ou não, só de casa.
Foi uma decisão extrema, mas eu fico em paz, sei Quem cuida de mim.
"Lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós. "
1 Pedro 5:7